11 dezembro 2009

AS LAVADEIRAS

As lavadeiras no tanque noturno
Não responderam ao canto da sibila.


“Lavamos os mortos,
Lavamos o tabuleiro das idéias antigas
E os balaústres para repouso do mar...
Nele encontramos restos de galeras,
Quem nos desviará do nosso canto obscuro?
Nele descobrimos o augusto pudor do vento,
O balanço do corpo do pirata com argolas,
Nele promovemos a sede do povo
E excitamos a nossa própria sede...”


As lavadeiras no tanque branco
Lavam o espectro da guerra.
Os braços das lavadeiras
No abismo noturno
Vão e vêm.



In: Poesia liberdade. Rio de Janeiro, Agir, 1947.

MURILO MENDES

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